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Quem matou Eloá: a mídia sob análise

24/10/2008

 

Mais uma vez a mídia brasileira demonstrou o quanto está viciada e como não aprendeu com erros recentes da cobertura jornalísticas nos casos que envolveram grande comoção nacional.

 

Em entrevista ao Portal Terra, o ex-comandante do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e sociólogo, Sr. Rodrigo Pimentel, avaliou que a cobertura feita pela Rede Record, Rede TV e Rede Globo, prejudicou as negociações com Lindemberg Alves. Ele é categórico ao afirmar que a postura das emissoras foi “irresponsável e criminosa”.

 

“O que eles fizeram foi de uma irresponsabilidade tão grande que eles poderiam, através dessa conduta, deixar o tomador das reféns mais nervoso, como deixaram, poderiam atrapalhar a negociação, como atrapalharam.”, relata.

 

Co-autor do livro “Elite da Tropa” e roteirista do filme “Tropa de Elite”, Pimentel faz uma crítica ainda mais incisiva à interferência da apresentadora Sonia Abrão, da RedeTV!, nas negociações. Ela entrevistou Lindemberg ao vivo na última quarta-feira, 15.

 

a midia ultrapassando as fronteiras do bom senso

Sônia Abrão: a mídia ultrapassando as fronteiras do bom senso

 

“Foi irresponsável, infantil e criminoso o que a Sonia Abrão fez. Essas emissoras, esses jornalistas criminosos e irresponsáveis, devem optar na próxima ocorrência entre ajudar a polícia ou aumentar a sua audiência”, afirma Pimentel.

 

Em texto publicado no site Observatório da Imprensa, Nelson Hoineff fez uma reflexão sobre o crime de Santo André. Vale a pena:

 

DRAMA DE SANTO ANDRÉ
Quem matou Eloá?

Por Nelson Hoineff em 21/10/2008

 

A desastrada participação da mídia eletrônica no episódio do seqüestro de Santo André (SP) revela menos sobre o seqüestro do que sobre a própria mídia. O seqüestrador não tinha antecedentes e estava tomado pela emoção. Tornou-se um assassino pela sua inabilidade em lidar com uma situação circunstancial. A televisão, porém, essa incentivou – e provocou – o assassinato.

 

A mídia tinha inúmeros antecedentes – e estava movida pela cobiça. O seqüestrador vai passar alguns anos numa penitenciária, apanhar bastante, possivelmente ser estuprado e ser devolvido para a sociedade inutilizado. A mídia, nesse período, já terá tirado proveito de várias dezenas de casos semelhantes. Para os programas policialescos, o caso de Santo André será na melhor das hipóteses lembrado como um número. Um bom número que só interessa ao Comercial.

 

A impunidade de um tipo de “jornalismo” (o nome vai entre aspas para preservar a dignidade da atividade) movido pela hipocrisia, pela estupidez e pela maldade só não é maior que o dinheiro que ele gera. No episódio de Santo André, a mídia (ou uma certa mídia) foi um agente ativo dos acontecimentos. O desfecho só foi possível pela ação direta da cobertura ao vivo da TV sobre o seqüestrador, pela sua capacidade em entronizá-lo como uma rápida celebridade midiática (não mais efêmera do que qualquer outra), de transtorná-lo, de amplificar uma ação criminosa pueril e deixar o seqüestrador sem opções. Tudo, enfim, o que já é conhecido por quem acompanhou o caso. 

 

Caso Eloá é mais uma demonstração do despreparo da midia brasileira

Caso Eloá é mais uma demonstração do despreparo da mídia brasileira

 

Não há dúvida possível sobre quem de fato matou a jovem de 15 anos. Para a mídia que matou a jovem não há punição e muito menos remorso. Já na manhã seguinte, as emissoras disputavam o privilégio de falar com a nova advogada do seqüestrador, uma pobre senhora já àquela altura deslumbrada com os holofotes, isca viva de repórteres e “âncoras” à espera da carniça.

 

Quem saca primeiro

 

O mau jornalismo que se pratica em boa parte da televisão brasileira tem a perversa característica de não alimentar dúvidas do espectador sobre o que ele está vendo. Ele – que para as emissoras não é um indivíduo, mas um consumidor – dificilmente se dá conta das circunstâncias que levam à espetacularização do fato policial e do que isso representa para a sua banalização.

 

Os espectadores são levados a acompanhar o desfecho de um seqüestro da mesma forma como acompanham o grand finale de uma série de ficção, sem perceber que ambas estão sendo escritas da mesma maneira: a ficcional tendo como base o papel, a real como matéria-prima a manipulação dos sentimentos dos protagonistas – a audiência e os diretamente envolvidos nos acontecimentos. Uns como os outros, seres humanos.

 

Na cobertura do dia-a-dia, helicópteros e holofotes acompanham ao vivo até as mais banais rixas de rua, e é um milagre que não as transformem todos os dias em crimes pesados. Isso acontece para gerar um ponto percentual de audiência, e para que isso aconteça os espectadores são induzidos a acreditar na relevância daquelas pequenas disputas.

 

A má televisão não hesitou um segundo em transformar um obscuro namorado abandonado de 22 anos numa celebridade instantânea, como se fosse um reality show com direitos gratuitos. A morte de uma menina e a destruição de famílias foram corolários espetaculares desse sucesso. Está na hora das suítes, depois os especiais e as matérias requentadas, até que essa mesma televisão transforme outro infeliz no sucesso do momento – e o repórter que sacar primeiro um celular gere aquele 0,1% de audiência capaz de vender algumas caixas de iogurte a mais.

 

A propósito: como era mesmo o nome completo daquela menina que jogaram pela janela?

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4 Comentários leave one →
  1. Fantástico permalink
    24/10/2008 20:20

    Simplesmente fantástico, um texto que deveria e muito ser levado em consideração. Parabéns!

  2. Ricardo Campos permalink*
    27/10/2008 11:03

    Obrigado e aguardo mais visitas ao blog.
    Abs.

  3. marcelo permalink
    31/10/2008 16:01

    a midia sempre foca o crimenoso e esquece que a vitima,e esquece que a vitima é que deveria esta em foco, e quando tem um desfeixe tragico como esse de Santo André a propria midia começa dar esplicações do por que da referida ação do criminoso, e ai vem mais uma edção onde o criminoso se torna o ator principal de um filme, como acomteceu no caso do onibus onde a professora morreu e hoje existe um filme justificando a ação do bandido e por encrivel que pareça a professora so aparece no momento em que o bandido a mata.

  4. Ricardo Campos permalink*
    02/11/2008 00:43

    Olá Marcelo,

    Obrigado pela sua visita e seu comentário.

    Realmente vivemos um momento de inversão de valores patrocinados pela mídia, que transforma tragédias em verdadeiros espetáculos televisivos, deixando de lado a ética e a função primordial do jornalismo que é a informação imparcial.

    Um abraço,

    Ricardo Campos

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